Uma investigação profunda revela como uma servidora pública, seu marido e até seus pais articularam um esquema para burlar a lei e arrematar terrenos públicos. O que eles não esperavam era que as câmeras do próprio leilão selariam seus destinos seis anos depois.
A sensação de impunidade que muitas vezes ronda a administração pública sofreu um duro golpe na nossa vizinha Matelândia. Em uma decisão proferida neste final de janeiro de 2026, a Justiça desmantelou o que parecia ser um plano perfeito de enriquecimento ilícito familiar, condenando cinco pessoas por fraude à licitação e falsidade ideológica. O caso, que remonta a um leilão de 2019, expõe as vísceras de uma prática antiga: o uso de “laranjas” para transformar patrimônio público em ganho privado.
O Plano: Quando o Interesse Privado Sequestra o Público
A trama começou a ser desenhada nos corredores do poder e na intimidade de uma casa de família. O alvo eram três terrenos municipais que a Prefeitura de Matelândia colocou à venda no Leilão Presencial nº 02/2019. Para qualquer cidadão comum, uma oportunidade de investimento; para a servidora comissionada que ocupava cargo de confiança no município, um fruto proibido.
A Lei de Licitações é clara e implacável: quem serve ao município não pode comprar bens dele, uma regra básica para evitar o uso de informações privilegiadas. Ciente da barreira legal, a servidora e seu marido não desistiram da compra; decidiram apenas mudar a estratégia. Segundo a denúncia do Ministério Público do Paraná (MPPR), o casal cooptou uma terceira pessoa — um indivíduo sem vínculos com a prefeitura — para atuar como o rosto visível de uma operação oculta. O objetivo era simples: fraudar o caráter competitivo do certame e garantir os imóveis para si.
A Cena do Crime: O “Smoking Gun” em Vídeo
O dia 23 de setembro de 2019 deveria ser apenas mais um dia de rotina administrativa. No entanto, o ambiente solene do leilão presencial tornou-se o palco da materialização do crime. O que os fraudadores ignoraram foi a onipresença da vigilância.
As provas reunidas pela 2ª Promotoria de Justiça de Matelândia são devastadoras pela sua clareza. Não foram necessárias escutas telefônicas complexas ou quebras de sigilo bancário internacional. A própria gravação da sessão do leilão entregou os réus.
Nas imagens, descritas na sentença condenatória, a “atuação conjunta” dos envolvidos é flagrante. O marido da servidora não apenas estava presente; ele sentou-se ao lado do “laranja”. No momento crucial, as câmeras capturaram o gesto que sepultaria a defesa dos acusados: o marido da servidora sacando dinheiro vivo e entregando-o nas mãos do intermediário para o pagamento do sinal (os 10% exigidos pelo leiloeiro). Ali, sob as luzes da sala oficial, a fraude foi consumada. Os três terrenos foram arrematados por R$ 143.500,00, sem que houvesse, segundo a Justiça, uma disputa real de preços com outros interessados.

A Lavagem: O Envolvimento dos Pais
Se a compra foi o primeiro ato do crime, a posse exigiu um segundo ato de dissimulação. Para que a servidora e o marido pudessem, de fato, serem donos dos terrenos, era preciso tirar os imóveis do nome do “laranja”.
As investigações comprovaram que o dinheiro para quitar os lotes saiu, de fato, do bolso do casal. Tempos depois, a “máscara” caiu: dois dos terrenos foram transferidos oficialmente para o nome da servidora e de seu esposo. Contudo, para o terceiro terreno, o esquema ganhou contornos ainda mais dramáticos ao envolver a geração anterior.
Os pais da servidora aceitaram receber a transferência do terceiro imóvel. Para o Ministério Público e para o Judiciário, essa manobra teve um único propósito: “ocultar a transação irregular”. Ao assinarem a escritura, os pais deixaram de ser meros familiares e tornaram-se partícipes de um esquema de falsidade ideológica, manchando o nome da família com tinta criminal.
A Conta Chegou: O Peso da Sentença
Quase sete anos após o leilão, a resposta estatal veio com rigor. A sentença, divulgada pelo MPPR, não poupou nenhum dos elos da corrente:
O Núcleo Duro: A servidora, seu marido e o “laranja” foram condenados a 6 anos e 5 meses de prisão, em regime inicial semiaberto. Além da privação de liberdade, o golpe no bolso será severo: cada um deverá pagar uma multa estipulada em cerca de R$ 45 mil.
O Núcleo de Apoio: Os pais da servidora receberam uma pena de 1 ano e 8 meses de reclusão, em regime aberto, além de multa, pelo crime de falsidade ideológica.
O caso de Matelândia serve como um alerta estridente para toda a região, inclusive para nós aqui em Céu Azul. Ele demonstra que as “velhas práticas” de compadrio e a sensação de que “tudo se ajeita” em cidades do interior estão colidindo com instituições de controle cada vez mais estruturadas e atentas. A fraude, que em 2019 custou R$ 143 mil aos cofres públicos em patrimônio, agora custará a liberdade e a reputação de uma família inteira.
(Por João Paulo Zimermann)

